Derretimento de um gigante: mesmo com receitas recordes, Manchester United empilha insucessos

Era 2013 e o Manchester United se despedia de um dos maiores treinadores da história do futebol, que deixava o trono de um império vigente, com o 20º título inglês do clube, 13 deles só nos seus 27 anos de comando. A aposentadoria de Alex Ferguson, porém, levou consigo o brilho de um dos maiores e mais valiosos times do mundo. Em 2025, o mesmo convive com constante irrelevância esportiva, problemas estruturais diversos, e medidas impopulares sobre funcionários.
No fim de fevereiro, Jim Ratcliffe — que assumiu o comando do futebol ao adquirir 25% das ações da família Glazer, no final de 2023 — anunciou o fechamento das lanchonetes para eles no estádio e centro de treinamento, cortando refeições gratuitas e passando a oferecer apenas pão, sopa e frutas. A base da pirâmide já havia sido atingida em julho de 2024, com a demissão de 250 empregados, sob a justificativa de redução de custos.
— O Ferguson, por ser um gênio, meio que escondeu os problemas que já existiam no clube, no nível de liderança e finanças, tendo tudo a ver com a família Glazer. Ela representa um capitalismo parasítico, cínico, que não tem nada a ver com o amor pelo esporte, só pelos lucros — aponta o jornalista inglês Jack Lang, do The Athletic. — Pegou um dos maiores clubes da história do futebol inglês e o destruiu aos poucos. Ficou evidente que está muitos passos atrás dos outros grandes europeus.
Compra polêmica
Em 2005, o americano Malcolm Glazer adquiriu um clube saudável financeiramente e que se consolidava como marca mundial. Porém, com um detalhe escuso: fazendo um empréstimo de 790 milhões de libras à época, dívida — ainda vigente — depois transferida para o nome do próprio United. Um negócio que passou a beneficiar apenas os empresários, donos de gestão criticada, maquiada pelo sucesso em campo à época.
A saída de Ferguson da cena colocou os Red Devils em processo de derretimento e fez as taças sumirem. Dentro de campo, o único título que não foi uma copa nacional nestes 12 anos foi a Liga Europa de 2016/17. Enquanto isso, rivais como Manchester City, Liverpool, Arsenal e Chelsea tomaras as rédeas.
Para uma torcida acostumada ao protagonismo, a seca evidenciou as lacunas da gestão. Em 2014, Malcolm morreu e o United ficou na mão dos filhos, Joel e Avram Glazer. Eles e nomes como o dirigente Ed Woodward, gestor de futebol mas especializado em setor financeiro, demitido em 2022, passaram a ser muito criticados por seguirem lucrando muito, mas isso não dar retorno.
Na temporada 2023/24, por exemplo, a receita de 867 milhões de dólares (cerca de 4,89 bilhões) foi recorde, e a quarta maior do futebol mundial, atrás de Real Madrid, Manchester City e PSG. Ao mesmo tempo, o United foi líder em gastos com contratações na última década na Europa, com um desperdício de 1,6 bilhão de euros (cerca de R$ 8,3 bi), o que leva o clube a ter saldo negativo e correr o risco de violar o fair play financeiro da Uefa.
Tudo mudou, nada mudou
O comando do futebol foi então passado com a venda minoritária a Jim Ratcliffe, homem mais rico do Reino Unido, dono da gigante petroquímica Ineos e torcedor do United. Porém, em pouco mais de um ano, a rota se mantém tortuosa. Enquanto demitiu funcionários e até mesmo destituiu Ferguson do cargo de embaixador, o clube segue arcando com multas rescisórias milionárias, como as do treinador Erik Ten Hag ou do dirigente Dan Ashworth, contratado para ser o homem forte do futebol, mas demitido após cinco meses. Ambos custaram cerca de 14,5 milhões de libras (R$ 104 milhões).
— Duas decisões incrivelmente caras para o Manchester United, que não deram nenhum pouco certo. E aí você tem essas decisões milionárias, mas também está mandando gente embora que ganha “merreca” — brinca Lang. — É punir quem está ganhando menos, os trabalhadores comuns, para tentar fazer uma diferença lá em cima.
Iniciando a rodada da Premier League no 14º lugar, com 34 pontos, o time só não corre risco de rebaixamento pois os times do Z-3 apresentam desempenho muito aquém — o Leicester, 19º com 17, é o adversário de hoje, às 16h (de Brasília). No entanto, a vaga em competições europeias está mais que ameaçada. Para estar na Liga dos Campeões, o caminho mais curto é vencer a Liga Europa, na qual o avançou às quartas de final, após golear a Real Sociedad por 4 a 1 na última quinta.
A outra notícia que amenizou os ânimos na semana, apesar de não curar a crise, foi o anúncio do projeto do novo estádio, para até 100 mil pessoas e com plano de ser entregue em 2031. O Old Trafford, que não passa por reformas significativas há duas décadas, será demolido no processo.
Ainda assim, os torcedores sabem que Ratcliffe é a cara da gestão, mas que os Glazers seguem como acionistas majoritários, e muitos protestaram antes do empate com o Arsenal, no domingo passado, vestidos de preto e carregando cartazes com os dizeres “queremos nosso clube de volta”.
Nem o próprio Ratcliffe ficou feliz com o legado dos Glazers. Em entrevista à BBC, divulgada na segunda, pediu paciência à torcida e reclamou de jogadores que custam caro, ou que ele precisa arcar com dívidas prévias.
— Se olharem para os jogadores que contratamos no verão, ou os que não contratamos, isso deve-se ao fato de termos comprado Onana, Hojlund, Casemiro, Sancho ou Antony. Estes negócios do passado, quer os torcedores gostem ou não de ouvir, criaram-nos este problema e temos de resolver. Alguns destes jogadores não são bons o suficiente e provavelmente são pagos em excesso — disse Ratcliffe.