Visão do Correio: Nova exploração de petróleo pede debate

A pauta da vez que polariza as áreas econômica e ambiental do governo federal envolve a procura por petróleo na chamada Margem Equatorial, a área que compreende cinco bacias sedimentares do litoral do Rio Grande do Norte até o Amapá. Após a descoberta da matéria-prima dos combustíveis fósseis em países vizinhos, como Suriname e Guiana, a Petrobras acredita que essa faixa geográfica pode guardar jazidas do ouro negro em quantidade suficiente para ampliar a independência energética brasileira, além de aumentar exportação.
Por um lado, a estatal quer um novo território para chamar de seu, ante a inevitável redução da exploração no pré-sal a partir da próxima década. Por outro, porém, está o Ibama e os ambientalistas, que temem o tamanho do impacto trazido por esse empreendimento à Margem Equatorial, principalmente pela vegetação do manguezal que circunda a área. Na biologia, esse tipo de ecossistema é conhecido como berçário, justamente por ser ali o início da vida de boa parte dos animais marinhos.
Contexto dado, os bastidores de Brasília indicam que o lado econômico tende a vencer a queda de braço. A expectativa é de que a licença saia em breve. O exemplo da Guiana serve como paralelo, apesar da realidade completamente diferente, em todos os sentidos, do país vizinho. A ex-colônia britânica viu seu PIB saltar 44% em 2023, recorde mundial. O reflexo no Brasil, evidentemente, seria numericamente menor, mas, ainda assim, suficiente para criar empregos e transformar a economia de uma região historicamente abalada pela desigualdade.
Nos bastidores, a disputa também coloca duas figuras importantes do governo Lula em conflito: o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, e a chefe do Meio Ambiente e da Mudança do Clima, Marina Silva. Publicamente, ele aposta que o licenciamento para a operação sairá ainda neste ano, uma vez que a Petrobras “cumpriu todas as exigências” do Ibama. Ela, no entanto, garante que não tem influência sobre o empreendimento, pois a decisão é de caráter técnico.
Dono da caneta, Lula teme o potencial dano para a imagem do seu governo. Ele reconhece o impacto positivo que a nova exploração representaria para o Brasil economicamente, mas lamenta o risco ambiental, sobretudo em um momento no qual o país se coloca como líder da agenda sustentável. “É contraditório? É, porque nós estamos apostando muito na transição energética. Ora, enquanto a transição energética não resolve o nosso problema, o Brasil tem que ganhar dinheiro com esse petróleo”, disse no ano passado.
Com tudo posto à mesa, o Brasil precisa discutir a questão com toda cautela que ela merece. A exploração de combustível não renovável traz reflexos importantes para a posição do país como líder ecológico, principalmente em um terreno preparado, nos últimos meses, para receber a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025, a COP30, em Belém, justamente nas proximidades da Margem Equatorial.
O Brasil, como dono de uma das matrizes energéticas mais renováveis do mundo, precisa dar exemplo como líder da agenda sustentável. Ainda assim, o prato oposto da balança pesa consideravelmente, sobretudo em um cenário de pouca tração do mercado de carros elétricos no país, diante do alto custo envolvido para aquisição desses veículos.